Muito além de “uma mulher a frente de seu tempo”

Ao assistir uma reportagem especial em comemoração ao centenário de nascimento de Frida Kahlo despertei para o assunto. Todas as referências a respeito dessa mulher se concentravam basicamente em “uma mulher a frente de seu tempo”. Bem, até então meus conhecimentos a respeito se limitavam a “pintora”. E nada mais. No entanto, minha curiosidade foi aguçada o suficiente para eu fosse além e buscasse pela história dessa personalidade.

Frida Kahlo não pode simplesmente ser referida como alguém a frente do seu tempo. É fato que suas idéias e seu comportamento não eram comuns à mulheres da época. Suas obras, chocantes. Distantes do padrão estético que agrada a maioria. Aliás, ela por si, apresentava estes mesmos traços. Fortes.Distante do padrão do “belo”. Mas falar de uma mulher como ela, é sobretudo, falar de uma sobrevivente. Uma mulher teimosa. Porque ao longo de toda sua vida, o que mais se observa, é que ela teimava em sobreviver. Uma luta diária.

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon, conhecida como Frida Kahlo, nasceu em 6 de julho de 1907, em Coyoacan, no México, para uma vida cheia de percalços. Aos seis anos contraiu poliomelite, o que a deixou coxa. Teve de conviver com um pé atrofiado e uma perna mais fina que a outra. Já havia superado essa deficiência quando em 1925, aos 18, sua vida mudou de forma trágica. Era setembro e o ônibus (novidade da época) em que Frida estava chocou-se em um trem. A pancada foi no meio do veículo e Frida recebeu todo o baque do acidente. Ela foi varada por um ferro que lhe atravessou o abdome, a coluna vertebral e a pélvis. Ela sofreu múltiplas fraturas, fez várias cirurgias (35 ao todo) e ficou muito tempo presa em uma cama.

Começou a pintar durante a convalescença, quando a mãe pendurou um espelho em cima da sua cama. Frida sempre pintou a si mesma: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”. Suas angustias, suas vivências, seus medos e principalmente o seu amor pelo marido Diego Rivera, com quem mantivera uma relação bastante tumultuada, marcada por traições de ambas as partes. Frida viveu romances paralelos com mulheres e homens, o mais famoso com o revolucionário russo León Trotski.

Contudo, a maior dor de Frida foi a impossibilidade de ter filhos (embora tenha engravidado mais de uma vez, as seqüelas do acidente a impossibilitaram de levar uma gestação até o final), o que ficou claro em muitos dos seus quadros. Aliás, seus quadros refletiam o momento pelo qual passava. Frida jamais pintou sonhos, e sim a realidade que a cercava, da melhor maneira que encontrava. Era sua forma em particular de permanecer viva.

Na madrugada de 13 de julho de 1954, Frida, com 47 anos, foi encontrada morta em seu leito. Oficialmente, a morte foi causada por ‘embolia pulmonar’, mas há suspeita de suicídio. No diário, deixou as últimas palavras: ‘Espero alegre a minha partida – e espero não retornar nunca mais.’

Frida Khalo, assim como Clarisse Lispector, me encantaram, não por suas obras. Mas pela trajetória de vida de cada uma. Não ouso aqui, fazer um paralelo entre essas duas mulheres. Isso seria completamente fora de contexto, algo além do que me é permitido. Todavia, não há dúvidas do quanto a firmeza unida a uma fragilidade e sensibilidade imensa, algo tão paradoxo, fazem delas personalidades marcantes. E motivo de admiração. Talvez porque ser mulher, em seu aspecto mais belo e verdadeiro, antes de mais nada, é estar nesse paradoxo: sensibilidade/fragilidade, força/firmeza.

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2 Responses to “Muito além de “uma mulher a frente de seu tempo””


  1. 1 Eduardo Maçan abril 7, 2008 às 3:16 pm

    Mór gatcheeenha na foteenha.

  2. 2 Mari maio 9, 2011 às 5:01 pm

    Gostei do seu ponto de vista. Sem dúvida Frida foi alguém que, estimulada pelo ambiente favorável de sua casa, desenvolveu uma personalidade criativa marcada por traços fortes e realistas.


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