Lei do menor esforço

Dia desses, sem querer, ouvi uma conversa alheia:

“Rapaz, você emagreceu muito! Que andou fazendo?”“Ah, fui ao endocrinologista e tal (…). Ele me receitou um remédio para emagrecer. Perdi 10 kg em um mês! Eu comia 6 pães de manhã e agora só consigo comer 2, no máximo…”

Na hora em que ouvi senti como se tivesse levado um soco no estômago, literalmente. 

Inibidores de apetite. Será que as pessoas não fazem idéia do quanto isso é prejudicial ao organismo? Como é que alguém pode considerar a perda de 10 kg em um mês como algo perfeitamente normal? Impossível! Pelo amor de Deus…

Para quem não sabe, inibidores são anfetaminas, causam dependência e outros milhares de efeitos colaterais. Além disso, geralmente, após a interrupção do uso, todo o peso é recuperado tão rápido quanto foi perdido. Óbvio, seus hábitos ainda são os mesmos, e sem a droga para inibir sua fome… esquece, você vai engordar de novo.

Agora, apenas algumas informações que justificam tamanha preocupação: os inibidores derivados das anfetaminas (fenproporex, anfepramona e mazindol) atuam no sistema nervoso central, causando dependência química.  Seu uso também coloca o paciente sob risco de desenvolver hipertensão arterial, taquicardia, problemas hepáticos e renais, ansiedade e agitação. Para controlar esses últimos sintomas, os médicos costumam associar o medicamento a ansiolíticos, como por exemplo, o Diazepan, Lexotan.  Além de proibida, essa associação potencializa os efeitos colaterais das anfetaminas. O uso crônico da substância é outro problema, já que pode levar o paciente a desenvolver esquizofrenia paranóide, doença caracterizada por alucinações táteis, auditivas e visuais.

Só se receita inibidores à base de anfetamina para casos de obesidade em que a pessoa apresenta índice de massa corporal (IMC) acima de 30.  Cerca de 32% dos brasileiros estão com peso acima do normal mas apenas 5% deles tem atingem o índice de 30. Isso demonstra, que caso essa prescrição fosse levada a sério, o Brasil jamais ocuparia a honrosa posição de líder mundial em consumo desse tipo de droga.

O que mais me deixa irritada é a falta de responsabilidade dos médicos que receitam. E o pior: falta de informação.  Quando prescrevem, erram na dosagem. A OMS recomenda que a dosagem de fenproporex, por exemplo, varie entre 20 miligramas e 60 miligramas. O ideal é ficar na faixa do 25 miligramas ao dia. Em algumas receitas foram prescritas dosagens de 100 miligramas/dia! 

Os pacientes chegam ao consultório e o médico ainda pergunta se eles querem um remédio que tire muito o apetite ou um que tire menos, mas tenha uma ação mais prolongada. Francamente, quem deveria analisar o quadro clínico e avaliar se é necessário ou não o uso de medicamentos é o próprio médico! É óbvio que um paciente ávido por perder peso sempre vai querer uma maneira mais fácil, rápida e sem esforço. Não vai recusar a facilidade do remédio nunca…  E quem tem a obrigação de orientá-lo da melhor maneira possível?!?! A princípio, o médico.  No entanto, diante de tanta incompetência e negligência, penso que se depender exclusivamente deles, a saúde vai de mal a pior nesse país (como quase todo o resto…).

Estima-se que o consumo de inibidores de apetite no Brasil seja superior a 20 toneladas por ano. Oras, representam lucro garantido!!! No bom português, “junte a fome com a vontade de comer” (que ironia…) e veja que bom negócio: os remédios para emagrecer permitem efeitos mais rápidos para os pacientes, uma venda maior nas farmácias e o aumento da clientela dos médicos. A combinação ideal. Sem contar a facilidade de se conseguir receitas e as drogas. Se você digitar no Google “inibidores de apetite” vai encontrar uma ampla lista de sites vendendo o medicamento indiscriminadamente.

Agora, digam-me, como é que nós, (futuros) nutricionistas combatemos uma situação dessas? É uma competição desigual, principalmente porque nosso enfoque é prevenção. E prevenção não dá dinheiro à indústria farmacêutica tampouco ajuda na carreira do endocrinologista. Não existem programas de (re)educação alimentar ( dentro das escolas, postos de saúde, etc) no qual todos possam ter acesso. As campanhas do Ministério da Saúde na televisão não esclarecem nada a respeito (e nem ousariam!). E o maior problema: a falta de conscientização.  E estou falando da porção mais rica da população, aquela que tem acesso a informação, condições de custear os medicamentos e tudo mais. A massa pensante, formadora de opinião…paradoxo, totalmente alheia.

Nada me deixa mais aborrecida do que ver um indivíduo saudável tomando remédio para emagrecer porque quer perder uns “quilinhos”, quando um reeducação alimentar já era mais que suficiente para resolver a questão. É a Lei do Menor Esforço predominando. Orientar, educar, implantar hábitos saudáveis nos outros não é tarefa fácil em uma sociedade consumista e com um McDonald’s & Afins em cada esquina. Ou com as propagandas mais que perfeitas e criativas da Coca-Cola. Ainda assim, estamos aqui para isso.

Mas por favor, ao menos fique mais atento, por sua própria saúde. Não deixe que médicos tentem entupi-lo com inibidores sem antes saber exatamente qual é o caso em questão. Exija explicações, demonstre que é informado e que definitivamente não se encontra tão alienado quanto eles imaginam.

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7 Responses to “Lei do menor esforço”


  1. 1 Eduardo Macan março 11, 2007 às 2:15 pm

    É também porque ninguém quer abrir mão dos vícios que consideram prazeres. Sim, vícios. Porque comer também se torna um vício e como todo vício, é difícil abandonar.

    Comer errado, pra ser mais exato, porque a gente tem que ter uma alimentacão compatível com a vida que a gente leva. Se você passa o dia todo sentado na frente de um computador você tem necessidades energéticas bem diferentes do que quem trabalha cortando lenha o dia com um machado o dia todo.

    E o ser humano certamente não foi projetado pra ficar 10h por dia atrás do computador sentado, devíamos estar por aí cacando nosso próprio alimento e fugindo de predadores… a única maneira de restaurar esse balanco natural perdido é a prática reguar de esportes, e nem adianta dizer que não tem dinheiro pra academia porque correr e pular corda ainda são de graca (menos a corda).

    Mas manter hábitos saudáveis requer atencão, dedicacao e disciplina ao menos até eles realmente se tornarem hábitos e você não percebê-los mais como uma obrigacão. E mais, as pessoas querem o resultado agora, já, pra ontem! Coisa que qualquer pessoa de bom senso saberia não ser bem assim.

    A culpa é essencialmente do ideal hedonista que é imposto à massa pelos meios de comunicacão…” Você deve dar e obter o máximo de prezer no mínimo espaco de tempo, e esse é o objetivo da pessoa bem sucedida”

    Comer coisas gordurosas e doces, descansar e ter um corpo perfeito , atraente e sexy são todos ideais enfiados goela-abaixo dos pobres incautos consumidores da mídia de massa, por mais contraditórios que possam parecer.

    Mas coisas como respeito ao biotipo natural, à saúde, o cultivo e manutencão de bons hábitos e da auto-estima são coisas chatas demais pra aparecerem na televisão :/

  2. 2 Jana março 13, 2007 às 2:12 am

    Bom, eu sou absurdamente, “xarope” para me alimentar..rs, melhor não fazer comentários…Aliás, como já dizia Falcão…”Eu não bebo, não cheiro, não fumo….”!!!! 🙂

  3. 3 Eduardo Macan março 18, 2007 às 12:12 pm

    Huahuhauha, é verdade Jana, já tinha até esquecido o quanto você era chata pra comer!

  4. 4 natalia frahia abril 11, 2007 às 4:12 pm

    tudo bem,eu assumo!sou viciada em comida….

  5. 5 natalia frahia abril 11, 2007 às 4:12 pm

    ok!sou viciada em comida

  6. 6 fatima julho 4, 2008 às 7:17 pm

    deseijo comprar med emagrecer com fenproporex anfetaminas etc……….deseijo saber preços

  7. 7 cenaless funciona junho 29, 2013 às 2:11 pm

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