Arquivo para Março 11th, 2007

Lei do menor esforço

Dia desses, sem querer, ouvi uma conversa alheia:

“Rapaz, você emagreceu muito! Que andou fazendo?”“Ah, fui ao endocrinologista e tal (…). Ele me receitou um remédio para emagrecer. Perdi 10 kg em um mês! Eu comia 6 pães de manhã e agora só consigo comer 2, no máximo…”

Na hora em que ouvi senti como se tivesse levado um soco no estômago, literalmente. 

Inibidores de apetite. Será que as pessoas não fazem idéia do quanto isso é prejudicial ao organismo? Como é que alguém pode considerar a perda de 10 kg em um mês como algo perfeitamente normal? Impossível! Pelo amor de Deus…

Para quem não sabe, inibidores são anfetaminas, causam dependência e outros milhares de efeitos colaterais. Além disso, geralmente, após a interrupção do uso, todo o peso é recuperado tão rápido quanto foi perdido. Óbvio, seus hábitos ainda são os mesmos, e sem a droga para inibir sua fome… esquece, você vai engordar de novo.

Agora, apenas algumas informações que justificam tamanha preocupação: os inibidores derivados das anfetaminas (fenproporex, anfepramona e mazindol) atuam no sistema nervoso central, causando dependência química.  Seu uso também coloca o paciente sob risco de desenvolver hipertensão arterial, taquicardia, problemas hepáticos e renais, ansiedade e agitação. Para controlar esses últimos sintomas, os médicos costumam associar o medicamento a ansiolíticos, como por exemplo, o Diazepan, Lexotan.  Além de proibida, essa associação potencializa os efeitos colaterais das anfetaminas. O uso crônico da substância é outro problema, já que pode levar o paciente a desenvolver esquizofrenia paranóide, doença caracterizada por alucinações táteis, auditivas e visuais.

Só se receita inibidores à base de anfetamina para casos de obesidade em que a pessoa apresenta índice de massa corporal (IMC) acima de 30.  Cerca de 32% dos brasileiros estão com peso acima do normal mas apenas 5% deles tem atingem o índice de 30. Isso demonstra, que caso essa prescrição fosse levada a sério, o Brasil jamais ocuparia a honrosa posição de líder mundial em consumo desse tipo de droga.

O que mais me deixa irritada é a falta de responsabilidade dos médicos que receitam. E o pior: falta de informação.  Quando prescrevem, erram na dosagem. A OMS recomenda que a dosagem de fenproporex, por exemplo, varie entre 20 miligramas e 60 miligramas. O ideal é ficar na faixa do 25 miligramas ao dia. Em algumas receitas foram prescritas dosagens de 100 miligramas/dia! 

Os pacientes chegam ao consultório e o médico ainda pergunta se eles querem um remédio que tire muito o apetite ou um que tire menos, mas tenha uma ação mais prolongada. Francamente, quem deveria analisar o quadro clínico e avaliar se é necessário ou não o uso de medicamentos é o próprio médico! É óbvio que um paciente ávido por perder peso sempre vai querer uma maneira mais fácil, rápida e sem esforço. Não vai recusar a facilidade do remédio nunca…  E quem tem a obrigação de orientá-lo da melhor maneira possível?!?! A princípio, o médico.  No entanto, diante de tanta incompetência e negligência, penso que se depender exclusivamente deles, a saúde vai de mal a pior nesse país (como quase todo o resto…).

Estima-se que o consumo de inibidores de apetite no Brasil seja superior a 20 toneladas por ano. Oras, representam lucro garantido!!! No bom português, “junte a fome com a vontade de comer” (que ironia…) e veja que bom negócio: os remédios para emagrecer permitem efeitos mais rápidos para os pacientes, uma venda maior nas farmácias e o aumento da clientela dos médicos. A combinação ideal. Sem contar a facilidade de se conseguir receitas e as drogas. Se você digitar no Google “inibidores de apetite” vai encontrar uma ampla lista de sites vendendo o medicamento indiscriminadamente.

Agora, digam-me, como é que nós, (futuros) nutricionistas combatemos uma situação dessas? É uma competição desigual, principalmente porque nosso enfoque é prevenção. E prevenção não dá dinheiro à indústria farmacêutica tampouco ajuda na carreira do endocrinologista. Não existem programas de (re)educação alimentar ( dentro das escolas, postos de saúde, etc) no qual todos possam ter acesso. As campanhas do Ministério da Saúde na televisão não esclarecem nada a respeito (e nem ousariam!). E o maior problema: a falta de conscientização.  E estou falando da porção mais rica da população, aquela que tem acesso a informação, condições de custear os medicamentos e tudo mais. A massa pensante, formadora de opinião…paradoxo, totalmente alheia.

Nada me deixa mais aborrecida do que ver um indivíduo saudável tomando remédio para emagrecer porque quer perder uns “quilinhos”, quando um reeducação alimentar já era mais que suficiente para resolver a questão. É a Lei do Menor Esforço predominando. Orientar, educar, implantar hábitos saudáveis nos outros não é tarefa fácil em uma sociedade consumista e com um McDonald’s & Afins em cada esquina. Ou com as propagandas mais que perfeitas e criativas da Coca-Cola. Ainda assim, estamos aqui para isso.

Mas por favor, ao menos fique mais atento, por sua própria saúde. Não deixe que médicos tentem entupi-lo com inibidores sem antes saber exatamente qual é o caso em questão. Exija explicações, demonstre que é informado e que definitivamente não se encontra tão alienado quanto eles imaginam.


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